sábado, 23 de maio de 2009

Janires Poeta

UM CIDADÃO DAJERUSALÉM CELESTIAL

Texto de Paulo Morotta


"Foi há muito tempo atrás,Tempos que não voltam mais.Eu, com a cabeça de menino,corpo e asa de passarinho."

Conheci Janires em 1979. Ele aparecia de vez em quando nas reuniões de sexta-feira da mocidade de nossa Igreja em Copacabana, no Rio. Era um tipo meio esquisito para os padrões vigentes de beleza e status: magro, esguio, moreno, cabelos desgrenhados, usando um desbotado macacão jeans. O sorriso inconfundível, os dentes muito brancos, como que a dizer "você não me esconde nada", revelava a experiência e o jogo de cintura dos seus tempos de boêmia, e dizia alguma coisa diferente, muito forte, muito boa, algo realmente novo!Trazia sempre uma música de louvor a Jesus, ou uma palavra, às vezes dura, que nem os pastores ou os líderes daquele grupo se arvoravam a dizer. Um sujeito diferente. Ele vinha de São Paulo, e da mesma forma com que aparecia, sumia: ficava um tempão sem aparecer. Carregava uma bolsa de couro cru, bem surrada. Dentro dela uma Bíblia daquelas de capa mole, uma muda de roupas e um monte de cópias em fitas cassete de um tal Rebanhão, tipo feitas em estúdio de fundo de quintal, que faziam o maior sucesso no meio da rapaziada.A capa da fita, em papel cartão acetinado com a impressão em dourado da silhueta de uma pastor com um cajado na mão e uma ovelha ao seu lado, dizia tudo. Na aba menor os títulos: "Jesus, Filho do Homem", "Baião", "Casinha", "Arco-Iris" eram uma pequena amostra da genialidade do seu compositor.A fita era absolutamente revolucionária. O repertório, eclético: uma mistura original de rock rural, tendendo para o progressivo, com canções bucólicas carregadas de fraseados poéticos.Nessa época a MPB experimentava um movimento de renovação decorrente da abertura política. A música de Janires revelava influências de Zé Rodrix, Taiguara, Ivan Lins, 14 Bis, Raimundo Fagner, Gonzaguinha, Mutantes, para não falar de Pink Floyd, Beatles, Genesis e tantos outros que naturalmente influenciaram a nossa geração.É importante falarmos do contexto cultural e musical que estávamos vivendo, para nos situarmos no tempo e no espaço. Desde o início dos anos setenta, algumas coisas começaram a mudar também nos meios eclesiásticos.Até então, nas igrejas cantavam-se os hinos dos hinários tradicionais. O órgão e o piano eram os instrumentos permitidos. O violão acabava de conquistar sua posição nos meios jovens. Guitarra, baixo, sintetizador e bateria? Proibidos na grande maioria das igrejas. Vencedores Por Cristo, Semente, Elo, Logos, Jovens da Verdade e alguns outros grupos de expressão foram os embaixadores da nova música evangélica, introduzindo com sabedoria e maestria uma nova concepção musical.Janires foi um dos mais importantes representantes da segunda fase desta renovação musical. Falava das coisas comuns da vida. Ironizava os políticos corruptos, os comerciais da TV, parodiava filmes e novelas, falava das realidades, de sonhos, fracassos e frustrações, do pecado e da miséria resultante, para apresentar, em fulgurante contraste, a estonteante luz, a estupenda graça e a infinita paz de Jesus Cristo, que transformou a sua vida, de um quase marginal e presidiário, em um homem livre para viver a plenitude de uma vida totalmente regenerada.O Rebanhão era a cara do Janires. Começou ainda em São Paulo. A primeira formação, tomara que eu não esqueça ninguém para não ser injusto, tinha, entre outros, a Lurdinha, o Mike e o Carrá. Então ele resolveu se mudar para o Rio. Acho que foi Jesus quem mandou. Chegou com tudo o que ele tinha: a bolsa, uma mesa de som de 24 canais, um monte de caixas e amplificadores, e uma disposição incrível de tocar e cantar Jesus Cristo onde quer que fosse. Chegando ao Rio, fez logo seu primeiro discípulo: o Pedro Braconnot, atual e incansável líder do Rebanhão, discípulo de Jesus Cristo. Um dia ele e o Pedro foram assistir ao nosso humilde e esforçado ensaio, e nos convidaram para acompanhá-los. Fomos, Kandel Rocha na Bateria, André Marien na guitarra e eu, Paulinho Marotta, no baixo. Assim nasceu a segunda formação do Rebanhão. Logo depois veio o Carlinhos Félix com seu brilhantismo, para completar a formação. Tocar no Rebanhão foi uma das mais fantásticas experiências da minha vida. Janires era absolutamente inusitado! Todos tinham liberdade para criar, e apesar de nossas muitas limitações, aconteciam coisas interessantes. Essa música nos abriu espaços e muitas oportunidades para pregar o Evangelho em praias, praças, teatros, rádios (não posso esquecer do Paulo César Graça e Paz e da Radio Boas Novas em Vila Isabel, no Rio, onde tudo começou), TV, jornais, coretos, estações, e ruas desse Brasil afora. Muitas pessoas ouviram o Evangelho da boca do Janires, e algumas delas tiveram suas vidas transformadas pelo poder do Evangelho de Jesus Cristo.Três anos depois, Janires sentiu-se direcionado a mudar para Belo Horizonte, onde começou a servir na MPC, ao lado do Marcelo Gualberto, do Carlinhos Veiga e tantos outros. Juntou-se à equipe MPC e formou a Banda Azul, ao lado do Dudu Batera, Dudu Guitarra e Moisés. É claro que essa separação foi dolorosa para nós, creio que para ele também, uma vez que o Rebanhão foi criação sua e se identificava tanto com ele. Janires era fervorosamente apaixonado por Jesus. Ele tinha visto a miséria de perto. Desde cedo aprendera a conviver com a marginalidade em Brasília. Ganhava a vida como músico; logo se envolveu com as drogas, e o tráfico acabou se tornando um meio de vida. Preso em flagrante, talvez por ser primário, foi transferido para o Desfio Jovem de Brasília, onde teve contato com o Evangelho de Jesus Cristo. Lá, debaixo de muita oração e da disciplina e do amor daquela equipe, comandada por uma serva de Deus, teve uma experiência com Jesus. Ele não contava muitos detalhes dessa época, mas que tinha um coração ainda muito duro e abandonou a fé e voltou para as drogas. Algum tempo depois, agora já em São Paulo, ficou internado no Desafio Jovem, onde finalmente rendeu-se aos pés do Senhor Jesus. Sabia que ele não fizera nada de bom na vida para merecer que alguém morresse por ele. Quando entendeu que o próprio Filho de Deus morrera por gente como ele, não teve outro recurso que não entregar-se com todas as suas forças a Jesus. Desde então ele descobrira o amor de Jesus, e se apaixonara por Ele, a ponto de dedicar a sua vida somente para Ele.Janires era homem de oração. Sentia as dores dos que sofriam com as drogas, com o abandono, com a miséria, com a falta de perspectiva. Era lúcido e imparcial com os orgulhosos, os que se julgavam superiores. De raciocínio claro, tinha sempre uma resposta objetiva, às vezes mordaz, mas incrivelmente oportuna.Tinha a sobriedade e a firmeza de caráter de um homem experiente, e a vivacidade de quem tinha alguma coisa muito nova e boa pra contar.Considerava-se totalmente dependente da graça de Deus. Dedicava grande parte do seu tempo ao jejum, à oração e ao estudo da Bíblia. Gastava tempo prostrado diante de Deus, intercedendo pelas pessoas ao seu redor.Janires não era um homem comum. Ele não se preocupava em casar, constituir família, arrumar um bom emprego, comprar isso ou aquilo, essas coisas que têm tanta importância para nós. Vivia do que produzia. Sua música, seu artesanato: camisetas e impressos em silk-screen. Frequentemente recebia ofertas, às vezes muito boas, mas sempre achava alguém que precisasse mais do que ele daquele dinheiro. Assim como recebia, dava generosamente.Uma vez, dentro do ônibus, um policial revistando os passageiros, mandou que abrisse a bolsa. Ele aproveitando a oportunidade, falou para o guarda e para os outros passageiros da única arma que ele carregava, que tinha transformado a sua vida: a sua Bíblia. Outra vez fingiu-se de louco, gritando "Jesus, Jesus!" para afugentar marginais que importunavam duas moças em Copacabana. Não tinha medo da "barra pesada". Falava de Jesus para qualquer um, em qualquer lugar. Não perdia oportunidades para contar que Jesus tinha transformado a sua vida.Janires foi inicialmente rejeitado e até odiado pelas lideranças eclesiásticas que viam nele uma aparente ameaça, por ser tão diferente do comum, mas ganhou o respeito e admiração de todos os que puderam conhecê-lo de perto, por causa da autenticidade de seus atos e de sua fé genuína em Jesus Cristo, e dos frutos que produziu.Circulava livremente por todas as vertentes denominacionais, desde a tradicional, até a mais renovada, e tinha grande simpatia dos grupos católicos carismáticos. Janires valorizava a unidade da igreja, respeitando as diferenças e peculiaridades de cada grupo. Por isso ganhou o respeito e a simpatia de muitos. Tinha um impressionante domínio do público. Falava para quarenta mil pessoas com a mesma facilidade com que apresentava Jesus em um diálogo pessoal. Todas as suas apresentações seguiam uma lógica. A seqüência das músicas que cantava era concluída com uma prédica inteligente, poderosa e inspirada, totalmente bíblica, cheia de analogias culturais e temporais que prendiam a atenção dos ouvintes para o ponto central: a confrontação com a realidade de Jesus Cristo!Em janeiro de 1988, foi chamado pelo Senhor Jesus para a Glória, em um trágico acidente, quando voltava do Rio para Belo Horizonte. De bens materiais não deixou muita coisa, além da velha bolsa e do violão Ovation. Mas um imenso legado, de vidas transformadas pelo seu testemunho e pelo seu exemplo, e pelas mudanças que imprimiu na história da música evangélica contemporânea.Eu, que escrevo estas palavras, tive o privilégio de conviver durante cinco anos com o Janires. Posso dizer que ele, pelo seu jeito de viver e ver a vida, influenciou tremendamente a formação da minha fé, da minha atual escala de valores, da minha concepção do mundo e do Reino de Deus. Digo isso, não para exaltar a memória de um homem, mas para que Jesus Cristo seja glorificado!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Sergio Pimenta


Quero apresentar uma das pessoas mais imprtantes para Evolução da musica cristã no Brasil

o grande Homen de Deus Sergio Pimenta


Com jeito de Pimenta e com sabor de Deus
por
Quico Fagundes
“Só quem sofreu, pode avaliar quem sofreu. Pode se identificar, pode ter o mesmo sentir”.
Sergio Pimenta foi um dos principais compositores evangélicos brasileiros. Participante da primeira geração de autores nacionais de Vencedores por Cristo, foi presença obrigatória em todos os principais discos e grupos musicais dos anos 70 e 80, como compositor, violonista e cantor. Autor de músicas como Cada Instante, Você pode ter, Quando a glória, Pescador, Ele é o teu louvor, Tudo ou nada, Vou chegar, Resposta Certa, Aquele que me ama, É preciso, Vem comigo, Fruto da semente, Para sempre e mais, Quando se está só, A moça do poço, O que me faz viver, Fonte, Só quem sofreu, e mais de 300 composições, será lembrado para sempre como um músico de Deus, um original raro, autor de canções dignas do “amor que jamais acaba” e legítimo herdeiro de I Co. 13.
Falecido em 1987, de câncer, aos 32 anos, é com alegria que divulgamos um pouco de sua vida e obra, em reconhecimento à sua enorme contribuição à música evangélica nacional.
Um pouco de história
Sérgio Paulo Muniz Pimenta nasceu em 1954, no Rio de Janeiro. Filho do Dr. Silas e D. Ilza, inicialmente membros da igreja congregacional e depois presbiterianos, de origem simples, moradores da zona norte do Rio; ele militar, médico do Exército, perfil meio sisudo, e ela mãe do tipo gentil, alegre, sorriso largo. Gente simples está certo, mas não gente comum. A diferença era a Vida, com “V” maiúsculo, em Jesus. Depois a música. E que música!
Meu primeiro contato com a música do Pimenta foi através das irmãs Itamar e Iracema Bueno, filhas do Cel. Silas Bueno, que tinham uma dupla e me pediram para decifrar uma fita com músicas de um rapaz do Rio que tinha um material diferente, sensacional. Isto lá pelos idos de 71/72. O violão da fita fazia umas craquezas que elas não conseguiam tocar e então procuraram um especialista (eu!), na época um garoto de 15/16 anos que tinha estudado um pouco de clássico. Maravilha. Lá estavam Cada instante e outras jóias, que passamos a cantar nas igrejas, com boa receptividade do público.
Vim conhecê-lo pessoalmente em janeiro de 1973, quando estive hospedado em sua casa, na Av. Barão do Bom Retiro, bairro do Grajaú, durante uma excursão de nosso conjunto Ele Vive ao Rio de Janeiro. Coisas da juventude. O ponto de contato foi o Apolônio Brandão, que na época já usava bigode, era o principal tenor do grupo e tinha frequentado a mesma igreja presbiteriana dos Pimenta, no Rio. Quando confirmamos a viagem e sabendo que seríamos hospedados por famílias cariocas, o Apolônio deu um jeito de me escalar na residência deles, com o argumento incontestável: “Quico, você precisa conhecer o Sérgio. Toca um violão sensacional e ganhou vários festivais evangélicos, com músicas de primeira. É gente finíssima, você vai gostar”. Dito e feito.
Nosso primeiro contato teve um lance pitoresco. De violão desembainhado, nos identificamos logo e tratamos de mostrar o material que estávamos tocando. Ninguém queria passar por pangaré e logo estávamos num entusiasmado desafio, ou melhor, desafino, pois éramos dois adolescentes meio derrapantes nos vocais. Depois de meia hora de violão prá cá e prá lá, e os dedos fazendo as melhores aranhas que conhecíamos para impressionar o adversário, adivinhem o que eu toquei para ele? Isto mesmo, Cada instante, que eu tinha aprendido na fita da Itamar e Iracema. Ele deu um pulo da cadeira e, como bom malandro, me alfinetou: “Há, essa fui eu que fiz!” Que coisa: quando você sabe tocar a música do cara e ele não sabe nenhuma sua, é porque ele está sendo mais solicitado do que você! A saída foi me render à força do adversário e dar também uma boa risada. Vejam como são as coisas: até hoje me lembro deste trauma de infância!
Eu tinha quase 17 anos e o Sérgio uns 18. Eu tocava violão com floreios clássicos e ele com tempero de bossa nova. Eu me preparava para o vestibular, para o curso de engenharia elétrica, e ele para medicina. Ambos gostaríamos de ter sido músicos profissionais, mas a estrutura da música evangélica da época não permitia. Naquele tempo, o que se conhecia eram os corais, os quartetos masculinos tipo Arautos do Rei, alguns solistas avulsos e, em São Paulo, o missionário Jim Kemp estava consolidando os Vencedores por Cristo. No início, eles cantavam músicas num estilo meio jovem-guarda, americanas traduzidas e usavam uniforme mais para anos 50. O nosso conjunto Ele Vive, era um clone deles. Gostávamos muito das canções de Ralph Carmichael, tipo Existe um lugar, Se eu fosse contar, Volte atrás e outras, com harmonia em 4 vozes e um violãozinho esperto acompanhando. Agora, viver exclusivamente de música, ninguém conseguia. Não havia mercado evangélico ainda. Os discos tinham uma produção caríssima e os mecanismos de divulgação eram muito limitados. Rádio evangélica, só umas duas AM em São Paulo e Rio, mas que ninguém ouvia.
É importante destacar que no início dos 70, estávamos vivendo uma época extremamente fértil na música popular brasileira, onde se destacavam talentos fantásticos como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Carlinhos Lira, Ellis Regina, Baden Powell, Luis Bonfá, Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Fernanto Brant, MPB4, Os Mutantes e se revelavam garotos mais próximos da nossa geração, como Gonzaguinha, Ivan Lins, Toquinho, João Bosco, Aldir Blanc, Secos e Molhados, Nei Matogrosso, os mineiros Toninho Horta, Wagner Tiso, Flávio Venturini, Beto Guedes, Lô Borges, Moraes Moreira e os Novos Baianos, os nordestinos Fagner, Belchior e Alceu Valença, os gaúchos Kleiton e Kledir e vários outros. Que geração de peso, heim?
Nossa formação musical estava toda baseada nos altos padrões dessa turma, fortemente bossa-nova, mais um pouco de Beatles e não esqueçamos de Pixinguinha, Noel, Garoto e Villa-Lobos.
Aí, o Pimenta levava uma grande vantagem sobre os outros músicos evangélicos, pois morava no Rio, de longe o grande centro cultural do Brasil, tinha crescido assistindo os principais artistas ao vivo, chegou a conhecer um ou outro de perto, sua família fazia rodas de samba e de choro entre uma feijoada e um Fla-Flu, e tinha ainda o mar e as calçadas de Copacabana para sobremesa. As antenas da Embratel estavam recém se tornando populares e tudo apontava para o Rio: a televisão, as novelas, os festivais, o cinema, o Fino da Bossa, a Tropicália, o Fusca, o Canal 100, o gol 1000 do Pelé, os Atos Institucionais do governo, as estatais, a dívida externa, etc. e tal. Nós assistíamos tudo aquilo pelo tubo da TV, em preto e branco. O Pimenta estava lá de corpo e alma, em cores.
Além disto, os anos 70 foram de muita contestação política e os estudantes do Rio fizeram constantes passeatas, enfrentando prá valer o regime. Alguns morreram em choques com a polícia, muitos foram presos e outros desaparecidos. O Sérgio também tinha coração de estudante e sonhava com um outro país. Embora não tivesse atividade política de esquerda, como era a moda, afinal era filho de militar, estudante do Colégio Militar e bom presbiteriano, acabou sendo um revolucionário no contexto evangélico.
Mas de todas as suas influências, tem uma que é de longe a principal para a música: o Sérgio era negro e carregava debaixo da pele todo o swing, a espontaneidade, a risada e o balanço naturais que só a negritude possui. Há! Juntem a esses cromossomos uma intimidade tremenda com Deus, que ele cultivava desde a infância, um coração manso, uma submissão enorme ao Altíssimo, o fascínio por Jesus e pela Palavra, mais o jeitão carioca e terão uma idéia de quem era ele.
Aleluia! “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era. Sérgio Pimenta”. Músico, carioca, crente, gênio. Ponto.
Depois que o tempo passa, parece que fica mais fácil olhar para trás e analisar a história. Enquanto as coisas estão acontecendo, acho que ninguém sabe exatamente a dimensão do seu papel. Ótimo, a vida foi construida assim mesmo. Deus não nos conta o que virá pela frente, mas requer passos de fé. Isto o Pimenta tinha de sobra e acredito que ele foi o que mais avançou dentre todos da sua geração. Passamos umas duas semanas trocando músicas e constituimos uma amizade bonita, daquelas que dão saudade.
A conspiração A vida continuou, às vezes nos encontrando e muitas nos separando. Parece que ele não malhou o suficiente para entrar na medicina, profissão de branco . Acabou seguindo a carreira verde e oliva, cedendo meio a contra-gosto às pressões paternas para ingressar na Academia Militar de Agulhas Negras em Resende-RJ.
Vocês podem imaginar o que é um sujeito altamente criativo, pura intuição, músico por natureza, daqueles já estão com a melodia pronta enquanto você só assobiou umas míseras notas, mais ainda a cariocagem sub-cutânea, ter que acordar todo dia de madrugada, enfrentar a rotina de um quartel e conviver num clima de disciplina e obediência aos superiores? Eu me arrepio, só em pensar. Pois para mim, foi justamente o que ele ganhou no Exército, a disciplina , que o levou mais longe do que os outros. O Pimenta tinha hábitos irritantemente responsáveis e como bom militar era Caxias mesmo, principalmente com os horários e ensaios. Ficava um leopardo rosnando quando a galera não levava a sério os compromissos. Vocês sabem como é esse pessoal de música crente. Muitos acham que Deus perdoa tudo e que podem levar os seus ministérios na flauta. Está certo, Deus perdoa, mas Ele também detesta picaretagem e mediocridade. Quem tem ouvidos para ouvir, leia e retenha o que é bom.
Já estamos em 1974. Mais estudo e menos música, tínhamos que virar adultos de futuro. Perdemos o contato por um bom tempo. De repente, não mais que um suspiro, apareceram os Vencedores por Cristo com o disco De vento em popa, revolucionando toda a música evangélica brasileira. Era 1977 e o Jim Kemp teve a iluminação de deixar de lado as traduções americanas e dar uma chance a jovens talentos locais. Conseguiram reunir feras como o Aristeu Pires Jr. de Brasília, os paulistas Guilherme Kerr, Nelson Bomilcar, Gerson Ortega, Arthur Mendes e, como não poderia deixar de ser, o carioca Sérgio Pimenta. Esse grupo formou um time de conspiradores, digno das maiores inconfidências, que mudou de vez o perfil musical evangélico do país! (Eu estava fora destas rodas musicais, mais envolvido com a engenharia. Lamento apenas não ter tocado o violão de Cada Instante a minha favorita. Lágrimas à parte, depois fui lembrado para o disco póstumo do Sérgio, tocando A moça do poço ).
O que estes garotos realmente fizeram? Para responder a esta pergunta, é importante lembrar o que era a música evangélica e a própria igreja. Nessa época, praticamente só existiam as tradicionais metodista, presbiteriana, batista, adventista, luterana, congregacional, assembléia de Deus e algumas pentecostais. Instrumento sacro, só o órgão. Música sacra, só de coral. Música congregacional, digna de ser cantada no templo, só os hinos tradicionais, 99% europeus e americanos traduzidos. Tinha uns tais de corinhos , considerados música de 2ª categoria. Para estes valia tocar violão, mas não durante o culto, principalmente o da noite, que era solene, formal e engomado. Os pastores faziam curso de oratória e mais uma tonelada de matérias com nome esquisito, como homilética, hermenêutica, propedêutica e usavam um português erudito, que nós, jovens, até fazíamos esforço para entender, mas francamente, parecia latim. Todas as igrejas também tinham o seu Conselho de Anciãos, que policiavam rigidamente hábitos e costumes.
Agora imaginem, de um lado um bando de guris nacionalistas, acompanhados por violão e percussão, cantando Jesus em bossas-novas, sambas, baiões e frevos, tudo igualzinho ao MPB4, Chico Buarque, Edu Lobo e cia. De outro, coloquem o bando dos jovem-guardistas, tocando guitarra, contra-baixo e bateria, num estilo copiado dos Beatles. Estesúltimos eram mais barulhentos, pois ainda usavam microfones e amplificadores valvulados. Agora, sintam o drama: os dois bandos querem tocar na igreja. Pior: no culto da noite! Pior ainda: toda a mocidade da igreja aderiu aos caras! Tijolada: está cheio de cabeludos, barbudos, mini-saias e calças boca de sino! Essa foi na canela e doeu prá chuchu: os jovens só querem saber dos movimentos para-eclesiásticos, como Palavra da Vida e Mocidade para Cristo. Chorem viúvas de Jesuralém: as igrejas tradicionais estão ficando vazias de jovens!!
Pois é. Houve conflito e confronto mesmo. Muitas igrejas não perceberam que os tempos tinham mudado e perderam gerações inteiras de jovens. A minha, metodista, infelizmente não teve sabedoria e expulsou muita gente. Custou caro. Levou mais de 15 anos para termos de novo uma igreja alegre e amorosa.
O grande mérito do grupo de Vencedores por Cristo foi, em minha opinião, juntar os dois bandos, nacionalistas e jovem-guardistas, e fazer uma música de alta qualidade, cantável tanto na igreja como em teatros. Eles perceberam que o importante não era contestar o sistema e sim, alcançar as pessoas, principalmente a mocidade. Foi assim, calmamente, sem guerrilha, que eles ocuparam o espaço e conquistaram a todos, abrindo portas para diversos outros grupos nacionais divulgarem seus trabalhos.
Considero muito importante também a visão de Vencedores de se articular com a COMEV - Comunicações Evangélicas e viabilizar um estúdio de gravação. Embora com limitações em relação aos principais estúdios da época, eles conseguiram reduzir substancialmente os custos de produção e o melhor: permitiram aos garotos somar experiência em arranjos instrumentais, engenharia de áudio, técnicas de gravação, mixagem, e todo o ciclo comercial de um disco. A experiência acumulada tornou-os melhores, longe de qualquer outro grupo brasileiro. Agora me digam, quem se tornou o principal compositor? Basta ver as capas dos discos e aparecerá com maior frequência o nome dele: Sérgio Pimenta.
O Casamento
Do meu lado, logo que acabei os estudos em computação, tratei de passar no cartório e me amarrar de vez com a minha alemoa: Susana. Casamos em 79 e como ela morava no Rio, cheguei a encontrar o Pimenta algumas vezes. Só que ele nunca comentou sobre namoradas. Parecia muito envolvido com o Exército e os discos.
Aí, chega o convite de casamento em 82. Legal, o criatura tinha descoberto que era humano e que ninguém é de ferro, afinal, estamos aí para crescermos e multiplicarmo-nos também. Abri o envelope, li o nome da noiva, Sônia, aliás muito bonito, desejei toda felicidade do mundo e fui ver o endereço para mandar um telegrama. Foi aí que tomei o maior susto: o nome dela era Dimitrov. Como? Quem será que o Sérgio foi arrumar? Isto mesmo, a moça era russa, descendente de ucranianos. Mais branca, impossível. Era batista, dentista e tinha participado de algumas equipes de Vencedores onde, conversa vai, conversa vem, acabaram se achando. Mulher de coragem também, pois enfrentou muitos olhares tortos para estar ao lado dele. Eu sempre achei que o cara era criativo e inovador, mas desta vez ele tinha se superado. Há!
Estivemos juntos, em família, algumas vezes e novamente fizemos uma amizade bonita. Temos filhos mais ou menos da mesma idade, eles o Renato e a Juliana, hoje com uns 14 e 13 anos, e nós a Ana Carolina e a Juliana. Eles tinham uma Brasilia-VW com estilo: rebaixada, rodas tala larga, volante esportivo e um belo som, com toca fitas. Ele era da arma de comunicações no Exército e sempre tentou ser nomeado em unidades próximas de São Paulo, para não atrapalhar o consultório da Sônia. Posso dizer que eles formavam um belo casal, superando todas as barreiras raciais e eram muito companheiros.
Quanto à música, o casamento trouxe também maturidade. Não podendo mais viajar tanto com Vencedores e já com outros sonhos na cabeça, os conspiradores Nelson, Gerson, ele e mais uns garotos, formaram o Grupo Semente, que produziu discos maravilhosos. Sua voz grave pode ser apreciada no LP “Plantando a Semente”, de 1982, onde ele canta “Resposta Certa”, que para mim é a sua melhor interpretação: “O coração do homem pode fazer planos, analisar as condições do mundo e os rumos desta vida, mas a resposta certa sempre virá, sempre será tão somente de Deus”. Pena que ele tenha cantado muito pouco nos discos. Como bom perfeccionista, tinha uma certa insegurança quanto ao resultado da gravação, pois se achava melhor compositor do que cantor. Cada louco com a sua mania, mas sua voz era excelente, principalmente para blues e bossas-novas. Ninguém em São Paulo tinha o swing e o sotaque carioca que combinavam tanto com aquelas canções.
A despedida Em 1986 voltei para Brasília e ele foi transferido para o Rio. Estivemos juntos no verão de 1987, em seu apartamento na Tijuca. Famílias reunidas, esposas radiantes, filhos lindos, músicas novas etc. e tal. Ele se queixava de uma dor nas costas, mas os exames não tinham identificado nada de anormal.
Em abril, tivemos a notícia do câncer. Choque geral. O que? Não pode ser verdade!! Era e a doença evoluiu rápido, fulminante. De nosso lado, tentamos todos os recursos: oramos fervorosamente, jejuamos, choramos na presença de Deus, vários pastores estiveram acompanhando de perto, a família procurou os melhores especialistas, seu pai que era médico fez o que pode, mas.
Em agosto de 1987, Sérgio Pimenta faleceu, no Hospital do Câncer em São Paulo. Inacreditável. Todos ficamos esperando um milagre até a última hora, mas ele se foi mesmo. E então?
O depois O que aconteceu e porque aconteceu não tem explicação. Já se vão 10 anos e cada vez que relembro o que passamos, toda vez que falo com a Sônia e as crianças, além de me emocionar, acabo convencido de que está muito além da nossa compreensão. Vocês lembram de Paulo em II Co 12, quando pediu três vezes que o Senhor tirasse o seu “espinho na carne”? A resposta de Deus foi: “a minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Penso também em Jesus no Getsêmani, conforme Mt 26, quando orou três vezes: “Meu Pai, se possível passe de mim este cálice! Todavia não seja como eu quero e, sim, como tu queres”. A cruz estava chegando e a cruz era o seu projeto de vida. Sei que o Sérgio fez esta oração também.
O que sobrou? Passados todos estes anos, fica claro, em primeiro lugar que ele fez uma escolha extremamente acertada para a esposa. A Sônia é mesmo uma grande mulher, pois reestruturou sua vida e, embora ainda não tenha outro companheiro, é uma pessoa alegre, que aceita desafios, não perdeu a fé e vai levando a vida com brilho. Os filhos são uma pintura. Lindos, espertos, já revelam os mesmos cromossomos da música e da malandragem discreta. Como se diz: “sangue não é água”. O Renato já é convidado para tocar flauta em eventos de gente grande e a Juliana tem a simpatia contagiante que a tornará uma grande cantora. De tudo o que ele fez na vida, seus filhos ainda são a maior obra de arte. Estarão sempre abençoados, primeiro pelos pais, depois por nós e, eternamente, por Deus.
E quanto à sua música? Também estará para sempre conosco. Vocês já repararam que a Bíblia tem sempre alguma novidade, mesmo depois de lida e relida por toda a nossa vida? Olhem que é um livro de quase 3000 anos de Antigo Testamento e uns 2000 de Novo. Porque ela nos atrai tanto assim? É porque foi feita com o amor que jamais acaba. O amor de Deus para com a sua criação.
O Pimenta usou estes mesmos tijolos na sua obra. O resultado: ela vai permanecer!
“Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens para vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus”. Mt 5:16
Aleluia! A vida continua. A Vida é de Jesus. É eterna e as portas do inferno não podem prevalecer contra ela!!

Eu e Meu Violão


Ao Dedilhar suas Cordas eu posso rir chorar
Desabar .
Vc que ja ouviu todos meus lamentos
Em vc desenvolvo meus talentos
eu meu violão meu violão e Eu
Presente do ceu que me ajudar a Adorar e me
expressar ao Criador da musica e do universo
com vc verso vira musica
e com a musica posso tocar o coração do Pai
Eu e Meu Violão meu Violão e Eu
juntos Ate chegar no Ceu
Onde vamos Louvar Por toda eternidade !!!!!!!!!!!!!!!!